sexta-feira, 16 de maio de 2008

Pra onde vão os chineses?

Apesar de não estar muito em voga nas discussões atualmente, a religião ainda possui grande representatividade no mundo, sendo uma grande influência nas questões de política internacional. Apresenta um empecilho a relações entre Estados e populações, pois cada religião regula, segundo suas normas, os direitos e deveres dos indivíduos; divide o mundo em blocos, dando margem ao preconceito e ao surgimento de rivalidades. Ainda, sendo cada religião fundamentada em verdades absolutas – dogmas –, elas tratam de negar quaisquer explicações diferentes das suas sobre as forças que regem o mundo. Aí aparecem as disputas, que mais tem a ver com expansão e dominação do que com afirmação ideológica. Qual seria o problema de uma coexistência pacífica? Cada povo tem sua salvação nas suas próprias crenças, que deveriam ser respeitadas. Até porque, não estando fundamentadas no método científico, não há como comprovar a superioridade de uma em relação a outra – a não ser pela força.

Imagino o mundo dividido em seus respectivos nichos religiosos, e uma fila de pessoas que morreram se encaminhando para cada local previsto por sua crença. Cristãos fraternos, solidários, honestos, leais, modestos, sãos e salvos se dirigem ao céu, dimensão que tem como cenário o jardim do Éden. Chatíssimo atualmente. O cristianismo existe há mais de dois mil anos sem ter sido, nesse longo período, reformulado ou atualizado. O conceito de felicidade mudou de lá pra cá. O ócio contemplativo, que prevê todas as coisas boas caindo do céu, virou entediante para quem se insere no regime competitivo do capitalismo. Neste o grande barato da vida é buscar a inalcançável felicidade ininterrupta e ferozmente; e conseguir chegar ao ápice da existência quando arranjamos um ofício ou uma posição honrosos para desempenhar na sociedade. Ficar bebendo o leite que jaz em uma corredeira não é, definitivamente, entusiasmante.

Mas o que importa é que eles – os que foram para o Éden – se salvaram; Livraram-se de arder no fogo do inferno. Os islâmicos fundamentam-se igualmente na questão da dicotomia céu-inferno. Com alguns deveres e direitos de conduta social diferentes dos cristãos, acordam com estes no que diz respeito às orações, às penitências, aos castigos, indispensáveis para salvar a alma quando não houver mais corpo. O céu dos islâmicos é um tanto mais chamativo para os homens. Lá chegando, eles se defrontam com belas virgens que se colocam a sua disposição para que desfrutem do paraíso. As semelhanças são grandes, mas pequenas diferenças como quem foi o profeta que trouxe a palavra de Deus, sobre a castidade dos que levam sua palavra aos leigos; poligamia, alimentos que podem ser consumidos, datas comemorativas... detalhes fazem com que se acirrem disputas sobre quem carrega a verdade. Tendo por trás interesses políticos, desenvolvem-se conflitos sem solução; nenhuma parte abrirá mão de suas próprias convicções. O resultado é o impasse que a história carrega há muito tempo.

Mas o que intriga realmente é o fato de que os chineses e outros povos orientais não tem pra onde ir quando seus corpos param de funcionar. Pra onde vão os chineses? O confucionismo é algo como um método de conduta social no qual os chineses estão inseridos desde o século VI a.C. É tomado como religião, mas é basicamente uma crença nos preceitos éticos emanados do filósofo chinês Confúcio, que evocam os fatores primordiais para que o homem tenha uma boa passagem em sua vida terrena. Enaltece a justiça e a obediência, onde os princípios humanos, cortesia, piedade filial, lealdade e integridade de caráter devem prevalecer. Por meios desses preceitos o homem é capaz de alcançar a paz e de ter uma boa convivência com o próximo. O confucionismo visa apenas a melhorar a vida do homem, sem a pretensão de se esmerar na explicação da origem e do fim do mundo. Colocando o homem no centro e sua capacidade própria de tomar o rumo que lhe trará felicidade, parece se encaixar com a vida do homem contemporâneo, para quem o importante é atingir o equilíbrio, o bem-estar e o sucesso durante a vida e não temer as represálias do que vem depois dela.

Na imagem da fila de pessoas em seus respectivos nichos religiosos, os chineses – logo eles, tão numerosos – não têm cenário pomposo para absorver suas almas. Eles não rezam nem sofrem por sua salvação. De outra feita, não brigam com ninguém pela supremacia das forças que regem o mundo. No que diz respeito ao desenvolvimento de um manual de conduta que ajuda os homens a trilharem seus caminhos em busca de uma boa existência e que sirva de apoio nos momentos de dificuldade, palavras de sabedorias ou fé desempenham um papel fundamental. Ter certeza dos seus passos, desenvolver boas relações, ter uma existência com mais sorrisos do que com tristeza, o ser humano se apega às crenças ou à psicologia para buscar apoio quando se sente perdido, sozinho e sem solução para seus problemas. Quando o que importa é se sentir bem, não há hierarquia entre religiões. Qualquer crença que leve paz ao homem desempenha sua função, sem precisar justificar-se por céus, infernos ou profetas. Muito mais do que prover a salvação no desconhecido, a fé nos ajuda a viver o presente e desfrutar do paraíso que a Terra fornece a quem aprende a viver bem.




Vitrola: Horizonte Distante

sábado, 10 de maio de 2008

Guitar Hero

Mocinho franzino, de forma imponente o andar um tanto cambaleante. Finge que não dá bola, e também se sente dono do mundo. Um misto de despojo com imponência. Estranhamente um tão fino corpo, sob tecidos que lhe sobram, se mantém em riste e transforma-se imprudentemente. Sorriso resplandece a olhos interessados; comete uma atrocidade, indo ao encontro de um coração que se sacode alvoroçado. Desleixado, blasé, engraçadinho, poser: atitude rebelde que não esconde o olhar afetuoso, a vontade de dar àquela o amor que encanta as notas do violão. Eu; a que o observa.



Vitrola: http://www.youtube.com/watch?v=zPvmwuLaXhE

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Do Riscado Imaginário

Devagar
Por entre dedos
Vão passar
Inúmeros segredos

Equilibrado e contínuo movimento
Abre o caminho da distração
Indo ao encontro de sonhos e tormentos
Que permanecem no plano da abstração

Desditos
Loucos devaneios
Contidos
No silencioso entremeio

Misturando o real e o imaginário
Vai surgindo o fio linear
O plano de ação estará traçado
Encontra sutil a saída salutar

Perfeito
O fim derradeiro
Em rodeios
Surge o amor verdadeiro

Mas o limiar do fio da fantasia
Esquece da sórdida realidade
Tendo o coração como guia
Transborda de beleza e irracionalidade

(Tic-tac)

De repente
Bate a razão
Se sente
O ar da reflexão

Ventania
No castelo de cartas
Um banho de água fria
Era tudo mentira

O fio arrebenta
E outra parte se enoza
- Nada é fácil como aparenta -
à poesia diz a prosa

Por isso que não se balbucia
O sonho que cau do céu
Guardado com a estrela-guia
Voa de graça, desliza ao léu



Vitrola: Onde Ir

terça-feira, 8 de abril de 2008

Il fait beau

Dor, sensação incômoda. Pode ser física ou psicológica. Às vezes acompanhada por lágrimas. É uma lástima. Invariavelmente uma ruga na testa aparece, transmitindo aos outros o mal-estar.

Mas descobri uma dor boa, elegante, bonita e corada. A dor de sentir frio. Sim, é uma dor: limita o movimento, ataca as articulações, restringe a respiração. A gente sofre. Os sintomas? Preguicite, fome excessiva, pele ressecada, tremeliques. Durante o inverno, não se passa um dia sem sentir a dor, sem se reclamar do friiio, sem tentar inutilmente se safar com os remédios alternativos: café, chimarrão, abraços queridos...

Tá, mas tudo isso se passa em um cenário lindo, de céu azul limpo, luz solar pálida, folhas e flores colorindo o desbotado; composto por ambulantes encasacados, mais luvas, cachecóis, boleros, ponchos; secos, fumaça na respiração que rapidamente fica ofegante; e as faces rosadas. Que vontade de estar juntinho, passar e receber calor. Proximidade, aconchego, sorrisinhos, estímulos.

Convivendo com o arrepio na pele, o corpo em constante latência acha o fervor da contemplação no banho quente, no cobertor macio, no pulsar do coração; tum-tum, aquece a alma e assim nasce a emoção. Amor.

Tímido, encolhidinho, importuno, nos mantém loucos por sensações, vontades; e os sonhos
...



Vitrola: Deixa o verão

quarta-feira, 2 de abril de 2008

D'Alva

Mocinha bonita
Com seu laço de fita
Desfila pomposa
Por entre curvas sinuosas
Fazendo o sol brilhar

A saia rodada em dégradé
Recebe um sorriso cortês
Tímido o olhar foge para o chão
E o rubor denota emoção
Apressado um resfolegar

Corre-se o risco de um abalo
Delírio pela beleza estimulado
Será tocado o céu
O mimo irá para o beleléu
A boneca vai quebrar

Porém envolta de alento
Revela o furor do encantamento
Dos pássaros se ouve o som
Do qual se dará o tom
Completando do dia o embelezar

É garoa pequena
Branca e serena
À vida vai tentar as cores
Buscando por amores
O arco-íris vai encontrar




Vitrola: As Vitrines

terça-feira, 25 de março de 2008

Do Ziriguidum

Nós brasileiros convivemos com o fato de não sermos um país rico em termos econômicos. Estudiosos e leigos são pessimistas quanto a possibilidade de nos tornamos uma superpotência, seja por conta de raízes sociais inadaptáveis à organização do Estado burocrático moderno, ou da corrupção que infesta os poderes da República. Com o cunho de país em desenvolvimento, ficamos em uma posição à margem no sistema de nações do cenário global, como se ainda não estivéssemos atingido o grau de organização necessário para dar conforto e bem-estar à população.

Em nenhum outro modo de produção a renda monetária esteve tão no centro da vida das pessoas. A base para o funcionamento do capitalismo é o consumo. Sendo assim, o fator excludente de uma sociedade ajustada aos moldes daquele é o poder de compra. Se o indivíduo não tem como absorver os milhares de produtos novos que surgem a cada dia, então ele não interessa para o sistema, ficando à margem. Assim, o homem contemporâneo está cada vez mais virando um refém cego da indústria, da tecnologia. O objetivo de vida se transforma gradativa e unicamente na aquisição de bens materiais, muitas vezes não importando os meios para atingir tal intento, de modo que, rodeado de quinquilharias, o sujeito angaria o respeito e o carinho dos que estão a sua volta. Sim, a nossa dignidade e existência estão diretamente atreladas ao nosso poder aquisitivo. Por isso que, já há algum tempo, tem se questionado se dinheiro equivale à felicidade.

Mas qual a relação disso com o Brasil? Bom, sendo um país não suficientemente desenvolvido, é conseqüente a existência de milhões de cidadãos marginais, ou seja, que não se inserem na sociedade consumidora, por terem condições de, no máximo, alimentarem-se. Porém, indo de encontro à relação consumo-felicidade, podemos observar que muitas dessas pessoas acham algum motivo para sorrir, para entusiasmarem-se. Eis que tenho cá minha teoria. A toda-poderosa-yankee variável consumo não é o forte do Brasil, todavia temos uma variável inata a que poucos têm dado a devida relevância: o samba. Este ritmo contagiante colore a alma, seduz os sentidos, hipnotiza o corpo, fazendo-o se mover, de acordo com o batuque. Claro que qualquer tipo de música traz a sensação de bem-estar: a clássica, a religiosa, a valsa..., mas aplicando uma metodologia altamente confiável pude concluir que o samba é superior a todos os outros gêneros musicais. Vejamos: observando o nível de abrangência populacional e de grupos regionais distintos, podemos dizer que o samba é o ritmo que mais facilmente as pessoas se encantam. Pode-se constatar tal inferência nas origens dos milhões de turistas que vêm ao País na época do carnaval: escandinavos, japoneses, catalães, eslavos, escoceses... o samba contagia qualquer grupo étnico, credo e opção sexual. Aos brasileiros, criadores desse tesouro cultural, o samba traz felicidade, sentido para a existência. Sob o efeito de milhares de sensações prazerosas, o indivíduo acha sua identidade na sociedade; com acesso livre à alegria, sem obstáculos econômicos, ele se sente parte de um conjunto, o qual qualquer um pode fazer parte, sem pré-requisitos – o conjunto do samba.

É gratificante perceber que existem outros fatores, além do dinheiro, que estão diretamente ligados com a felicidade. Se esta é o verdadeiro objetivo do ser humano, posso então dizer que o Brasil é um país diferenciado: consegue criar formas alternativas não apenas de combustível, mas de meios de aflorar a alegria na população, sem competições e poluição; apenas pelo libertar da expressão corporal. Dissimulado, o samba vem sendo parte de nossas vidas; de uma hora pra outra, ele pode subverter a ordem e alavancar o país do futuro.

Vitrola: Fita Amarela

quinta-feira, 20 de março de 2008

Do Baile


Devido a compromissos de suma importância conjugados com atividades universitárias tediosas, o novo post fica adiado para um dia mais tranqüilo.
Vitrola: Orquestra Imperial