sábado, 12 de julho de 2008

Do Autógrafo

O que é um autógrafo? Ou melhor, qual o sentido de um autógrafo? Parece que esse símbolo se tornou o método uniformizado de como se dá a relação entre fãs e ídolos. É um procedimento automático: sós ou conglomerados, fãs se alvoroçam, lançam seus papeizinhos intempestivamente à espera do tão sonhado rabisco. Sim, porque, com tamanho estranhamento que a comunicação entre dois desconhecidos causa, acompanhado do tal aglomerado em volta do ser aclamado, a dedicatória de um autor, do ídolo, fica resumida a garranchos, geralmente com a mesma mensagem: beijo, abraço e a assinatura –, às vezes acompanhado do nome do fã, se este tiver sorte.

Fico pensando quão desprovido de sentimento que é guardar o tal rabisco. Que lindo, meu ídolo sabe escrever. Acho, na verdade, que ele serve mais para se exibir e simular uma pretensa proximidade com o ídolo; o que não é de todo ridículo, se te faz bem. Mas acho que vale muito mais a pena aproveitar ao máximo aquele momento único que se tem de ficar cara a cara com o idolatrado. Trocar palavras, fazer uma tirada, levar carinho. Olhar em seus olhos, captar um pouquinho da alma, da fonte de inspirações, das mágicas que ali se produzem e te cativam. Guardar esse momento na memória parece ser muito mais especial do que o concreto a que se reduz um autógrafo. Sentir no ar o sorriso, o aceno direcionado a ti, captar a atenção que lhe é dada pelo ilustre desconhecido. É um plano diferente, abstrato, exige sensibilidade; não destreza, físico e gritaria. Emoção, dar-se tempo para sentir os nervos à flor da pele, e não lançar mão de um movimento automático que mecaniza as ações e dilui o momento em outros tantos iguais, deixando de ser único.

Tudo bem que o autógrafo pode ser a escapatória de uma situação embaraçosa. É instigante a situação em que uma pessoa ama aquele cuja vida sobre tudo sabe, que às vezes acompanha fielmente, sem, no entanto, conhecê-lo. O ídolo não sabe quem tu és. Aí, no cara a cara, o que dizer? O fã é desconhecido, sendo ainda qualquer um na multidão; o ídolo é, ao mesmo tempo, conhecido e estranho. Que relação estabelecer? Dependendo da desenvoltura de ambos: o nervosismo do fã, o não saber como lidar com isso do ídolo, o autógrafo parece ser aconselhável, de forma a evitar frustrações e micos. Embora eu pense que tentar esquecer a inibição e lançar-se com desenvoltura renda um momento mais interessante. Desenvoltura com classe. Um pouco blasé, digamos.

O fato é que o autógrafo é uma marca muito rude e sem graça para guardar como lembrança, ou para se considerar uma relíquia. É bom também tentar abstrair um pouco essa história de endeusamento das pessoas. Além do que aquele pequeno momento não tornará fã e ídolo amigos íntimos. Fazer uma brincadeira, dar um carinho. E só. O amor é simples.



Vitrola: Condicional

3 comentários:

cláu disse...

blasé, that's it! ;)
bjooo

Antonella disse...

Recuso-me a comentar no post mais recente só porque tu colocaste a folk-wannabe... hehehe Além disso, este aqui tá muito bom. Concordo plenamente...
Mas ainda não descobri se meus ídolos sabem escrever. :~

Bruna. disse...

Adooooro a Ton! ^^